quinta-feira, 26 de março de 2026

As coisas que fazemos sobrevivem a nós


 Acabei de levantar depois de ler uma mensagem da Ana Paula sobre minhas crônicas. A Ana é uma professora de excelência; trabalhamos juntas em uma escola particular aqui da cidade. Amante da Literatura e da Arte e dona de um coração puramente humano. Havia lhe enviado uma crônica que escrevi, pois queria sua opinião. E quando li a frase dela dizendo que minha escrita é um ímã, que fisga — no bom sentido — não apenas os amantes da Arte e, consequentemente, da literatura, como também quem venera a vida, foi mais do que suficiente para me fazer vir direto da cama para o notebook. Sabe aqueles dias que tentam te engolir antes do pôr do sol? Pois bem, foi hoje. Mas é aquela história: nada foge do controle de Deus. E ler sua mensagem foi mais potente do que se tivesse tomado duas xícaras de café torrado.

Outro acontecimento maravilhoso do dia foi receber a mensagem do advogado confirmando a curatela provisória do meu avô. Agora, legalmente, sou responsável por aquele homem que eu esperava na porta de casa após as onze da manhã dos sábados, que sempre me trazia pipoca e leite naquela bicicleta amarela. Agora, com Alzheimer, as memórias estarão se despedindo aos poucos, mas em mim ficarão para sempre. E para garantir que o tempo não as leve jamais, as eternizarei aqui.

Quando, no domingo antepassado, minha avó em sonho avisou que algo me aconteceria, mas que tudo ficaria bem, fiquei um pouco angustiada, preocupada e até incrédula por aquela comunicação. Então veio a segunda-feira, onde minha genitora nos abandonou friamente e, mais uma vez, meus pés não encontraram o chão. A terça foi um dia de escuridão. Mas na quarta voltei a ver o sol, e Janete começou a trabalhar aqui, cuidando do meu avô e do meu filho. Olhando para os dois, sentia que a dor de mais um abandono precisaria esperar. A necessidade do cuidado é mais urgente. Isso me faz perceber agora que preciso criar uma lista de espera para as dores. Não há tempo para atender a todas de uma vez. Mas com organização e paciência a gente chega lá.

Há dois dias, coloquei uma câmera no quarto do meu avô. Como não consegui pagar uma pessoa para ficar no horário da tarde com ele, a solução mais rápida foi instalar uma câmera de segurança com áudio para continuar cuidando à distância. E têm sido dois dias bastante divertidos. Para ele, é um celular na parede. Hoje cedo, já no trabalho, ativei a voz para lembrá-lo de beber água. Tomou um susto e ficou procurando de onde vinha a voz. Foi até a varanda, mas voltou à cadeira de balanço quando expliquei que eu estava no telefone acima da porta e poderia ouvi-lo da cadeira mesmo. O Alzheimer não tira férias. Seria bom se o fizesse às vezes.

Estive pensando, enquanto o olhava em tempo real, que, para além da necessidade urgente do cuidado atual, colocar essa câmera me garante mais uma forma de eternizar tudo isso. E vejo que o que vozinha disse em sonho era realmente real. De alguma forma ela viu tudo, como se nos assistisse por uma câmera de segurança que apresenta o futuro. E com a paz começando a fazer parte dos nossos dias, consolida a certeza que ela me deu: "Minha filha, tudo vai ficar bem!".

Ainda dói não poder acariciar os seus cabelos e, por enquanto, ainda não deu tempo de chorar toda essa dor. Por isso, como dizia antes, eu a deixarei na fila de espera. Não sei se um dia vou deixar de sentir o que sinto hoje — talvez nem queira, ou talvez nem possa. Afinal, não doer é como parar de sentir a saudade, e isso eu sei que nunca vai acontecer. Espero, ao menos, que minha face se inunde de lágrima quando chegar a vez dela na fila. Pois, no final, eu sei que tudo vai ficar bem. Ela mesma me garantiu

Olho as câmeras enquanto escrevo e o vejo dormindo um sono leve e merecido. Ontem adormeci com o celular na mão, observando-o, congelada e reflexiva. Uma sensação de paz, mesmo em meio ao caos. Lembro da fala que ouvi no trabalho essa semana: "Ninguém quer saber dos seus problemas pessoais, querem saber da Mônica profissional. Você sabia do trabalho que teria trazendo seu avô para morar com você. Se organize! Para fazer um nome leva tempo, mas para perder é fácil". Foi um momento em que me senti a Frozen, sem nenhum esforço. O choro não veio, mas a certeza de que ali não era o meu lugar ficou evidente.

Sinceramente, já não espero ser compreendida. Muito menos que ofereçam apoio ou que deixem de ser quem são. Na verdade, não espero absolutamente nada! Afinal, aprendi que o outro é território inabitável e, se há um espaço com que devo me preocupar, é o meu — embora sinta que nem ele me pertence por inteiro. Foi assim que compreendi que nada vale mais do que estar ao lado de quem a gente realmente ama e que nos ama de volta. No fim das contas, nada compensa a dor do arrependimento de não ter ficado mais tempo. Dos almoços não compartilhados. Das risadas que não existiram. Da vitamina que não foi preparada, do banho que não foi dado. Da unha que não foi pintada. Do cabelo que não foi cortado. Absolutamente nada vale esse preço.

Por isso, quando olho o seu sono tranquilo, sei que é exatamente ali que habita o meu coração. É nesse instante que recordo a frase do livro Extraordinário: 'As coisas que fazemos sobrevivem a nós'. Compreendo, enfim, que mesmo depois de mim, vocês são o que deve permanecer. Pois, felizmente, a gente só encontra a paz de verdade quando decide que o amor é o único território que realmente nos pertence


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