segunda-feira, 23 de março de 2026

A doença de um século


  Muitas falas ao mesmo tempo ao redor da mesa dos professores. Cada dupla, uma conversa diferente. Uma fala sobre uma apresentação para a qual precisam de tempo para ensaiar com os estudantes. Outros falam sobre a aluna que veio com roupa de academia; outra comenta sobre o lugar onde almoça uma vez por semana. Há quem fale da impressão de um texto que está aguardando na fila. Outros apenas olham para a tela do celular. Tocou o sinal: três se levantaram e foram para a sala de aula. Duas brincaram e se despediram como se fossem permanecer sentadas. Antes de se levantar, uma diz que esta semana vai dar uma "caminhadinha", que precisa cuidar da saúde. Cuidamos realmente da saúde para viver melhor ou para durar mais tempo na engrenagem?

    Hoje foi aniversário de uma colega, que trouxe lanche para todos. Celebramos com o tradicional "Parabéns para você". Achei a iniciativa inédita e muito interessante, mas não consegui identificar a mensagem em seu semblante. Será que estava satisfeita? Tomara que sim, afinal gastou sua energia para comprar tudo aquilo. Será que celebramos o aniversário ou apenas cumprimos o protocolo de estarmos vivos juntos?

    Enquanto todos interagem, fico aqui sentada, aguardando os estudantes entrarem na sala para pegar livros emprestados. A biblioteca está sendo usada para lecionar. E estou usando a sala dos professores para empréstimo de livro. Sou grata pelo meu trabalho e me sinto mal por as vezes, não desejar estar aqui. Desejo me deitar e dormir profundamente. Sem pressa, sem despertador, sem cobranças. Quero dormir. Minha função é leve e, por isso, me sinto ingrata. Cada um se movimenta de acordo com suas demandas e eu aqui, esperando a hora do fim do expediente. No fundo me pergunto: por que será que o cansaço da alma é visto como ingratidão e não como um pedido de socorro?

    Neste momento, na sala dos professores, o tempo é fatiado em minutos — daqueles em que o mundo moderno se revela um lugar onde todos falam e ninguém escuta. Já percebeu que estamos em uma hiperconexão desconectada? O mundo inteiro parece estar assim: resolvendo o urgente enquanto o essencial dorme. Celebramos anos de vida com rituais automáticos. Perceba que o problema global aqui é a perda da profundidade no encontro humano.

    E enquanto todos correm para as salas de aula, eu fico por aqui, observando o mundo girar numa sincronização de problemas universais quase perfeita. A humanidade esqueceu como é o silêncio de um sono sem culpa. Sentir-se mal por não querer estar onde se deve é a doença de um século que nos obriga a ser gratos por estarmos exaustos. A verdadeira liberdade não é ter um trabalho leve; é o privilégio de habitar o próprio silêncio.

    Eu só queria devolver o meu despertador para a fábrica. Devolver a própria contagem do tempo. Eu queria o silêncio que precede a invenção das horas. E enquanto todos celebravam como protocolo, eu mastigava a minha própria ausência, sentindo que a liberdade não é um trabalho leve, mas a permissão para se sentir inteira.

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