Muitas
falas ao mesmo tempo ao redor da mesa dos professores. Cada dupla, uma conversa
diferente. Uma fala sobre uma apresentação para a qual precisam de tempo para
ensaiar com os estudantes. Outros falam sobre a aluna que veio com roupa de
academia; outra comenta sobre o lugar onde almoça uma vez por semana. Há quem
fale da impressão de um texto que está aguardando na fila. Outros apenas olham
para a tela do celular. Tocou o sinal: três se levantaram e foram para a sala
de aula. Duas brincaram e se despediram como se fossem permanecer sentadas.
Antes de se levantar, uma diz que esta semana vai dar uma
"caminhadinha", que precisa cuidar da saúde. Cuidamos realmente da
saúde para viver melhor ou para durar mais tempo na engrenagem?
Hoje
foi aniversário de uma colega, que trouxe lanche para todos. Celebramos com o
tradicional "Parabéns para você". Achei a iniciativa inédita e muito
interessante, mas não consegui identificar a mensagem em seu semblante. Será
que estava satisfeita? Tomara que sim, afinal gastou sua energia para comprar
tudo aquilo. Será que celebramos o aniversário ou apenas cumprimos o protocolo
de estarmos vivos juntos?
Enquanto
todos interagem, fico aqui sentada, aguardando os estudantes entrarem na sala
para pegar livros emprestados. A biblioteca está sendo usada para lecionar. E
estou usando a sala dos professores para empréstimo de livro. Sou grata pelo
meu trabalho e me sinto mal por as vezes, não desejar estar aqui. Desejo me
deitar e dormir profundamente. Sem pressa, sem despertador, sem cobranças.
Quero dormir. Minha função é leve e, por isso, me sinto ingrata. Cada um se
movimenta de acordo com suas demandas e eu aqui, esperando a hora do fim do
expediente. No fundo me pergunto: por que será que o cansaço da alma é visto
como ingratidão e não como um pedido de socorro?
Neste
momento, na sala dos professores, o tempo é fatiado em minutos — daqueles em
que o mundo moderno se revela um lugar onde todos falam e ninguém escuta. Já
percebeu que estamos em uma hiperconexão desconectada? O mundo inteiro parece
estar assim: resolvendo o urgente enquanto o essencial dorme. Celebramos anos
de vida com rituais automáticos. Perceba que o problema global aqui é a perda
da profundidade no encontro humano.
E
enquanto todos correm para as salas de aula, eu fico por aqui, observando o
mundo girar numa sincronização de problemas universais quase perfeita. A
humanidade esqueceu como é o silêncio de um sono sem culpa. Sentir-se mal por
não querer estar onde se deve é a doença de um século que nos obriga a ser
gratos por estarmos exaustos. A verdadeira liberdade não é ter um trabalho
leve; é o privilégio de habitar o próprio silêncio.
Eu
só queria devolver o meu despertador para a fábrica. Devolver a própria
contagem do tempo. Eu queria o silêncio que precede a invenção das horas. E enquanto
todos celebravam como protocolo, eu mastigava a minha própria ausência,
sentindo que a liberdade não é um trabalho leve, mas a permissão para se sentir
inteira.
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