Uma crônica dedicada a um amigo querido, que tem sido um tanque de guerra — o mais delicado, gentil e forte que já conheci.
Já se passaram onze meses desde que encontrei um amigo em meio às redes sociais. De início, buscava histórias emocionantes para fazer parte de um projeto de escrita que muito me inquietava: as dores do mundo, escondidas em sorrisos bonitos. Por trás das telas, quem estava lá?
Will parecia alguém que carregava as histórias que eu procurava: cabelo longo, olhar distante e sereno, sorriso sutil. Um certo vazio escancarado em sua íris. E uma força invisível o mantendo de pé. Não sei você, mas tenho facilidade em identificar no outro aquilo que é gritante em mim. Pois bem! Apresento: Will!
Lembro claramente. Era uma tarde fria de sexta-feira. Último dia de expediente na escola. Estava ali, com a cabeça cheia de ideias, vasculhando vidas. Ao mesmo tempo, refletia sobre a vida e suas possibilidades. E lá estávamos, iniciando nossa primeira conversa.
Ele desconfiou que eu fosse real — quem é que para, hoje em dia, para ouvir a dor de um estranho? Mas a verdade não precisa de esforço para ser reconhecida.
Em algum momento do nosso diálogo, a confiança surgiu. Porque quem é de verdade não precisa fazer esforço algum para ser reconhecido como tal. Havia lhe enviado algumas perguntas para refletir sobre a vida. A partir delas, ele me enviou, no sábado, um relato pelo WhatsApp. Eu li devagar. Mais de uma vez. Entendi de onde vinha aquele olhar distante, sereno e vazio, mas, acima de tudo, cheio de força.
As coisas começaram a mudar para ele aos doze anos. Corpo leve. Olhos brilhando. Ainda não conhecia uma dor intensa. Inúmeros sonhos. Jogava bola. Era um ótimo jogador. Até um olheiro do Goiás já o observava. Naquela época, o futebol era tudo. Mas parou ali. E por quê? Vamos lá…
Ele estava na calçada, esperando o irmão mais novo, Allan.
De repente — um puxão. Um peso. O corpo sendo arrastado.
Um caminhão-pipa subiu a calçada e esmagou suas pernas. Allan correu.
Gritou. Avisou o que estava acontecendo, e o motorista fugiu. Nessa parte da leitura, eu já estava chorando. Após o desespero, os bombeiros foram chegando, mas Will não ouvia nada. Só uma música alta dentro da cabeça.
Na ambulância, o irmão mais velho dizia:
— Não dorme.
Mas o sono vinha. Um clarão. Depois, escuro. E novamente o clarão. Quando acordou, estava no hospital, em cirurgia. Chamava pela mãe.
No dia seguinte, abriu os olhos na UTI. Sua mãe, Luciene, estava ali, com um prato de arroz nas mãos. Como mãe, sei que o desejo é trocar de lugar com nossos filhos nesse momento.
Will lhe perguntou se voltaria a jogar futebol. Ela respirou. E disse que não. Após dois anos, ele voltou a andar e recomeçou uma nova forma de viver, dividindo-se entre consultas, exames, retornos e superações diárias.
Foi aí que lembrei de algo que li em A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown.
Ser real leva um tempo.
Quando alguém se torna real, já perdeu partes. Já foi desgastado. Já foi atravessado. Já está, de algum modo, surrado.
E, ainda assim, permanece. Will permaneceu. Inspira. Encanta. Motiva. E fortalece.
Hoje mesmo, enquanto conversávamos, ele lembrava uma frase tatuada no braço de seu irmão, Bira, que faleceu agora em março: “Nasça para perder, viva para vencer.” Escrita por um de seus músicos favoritos, o Lemmy. Paramos para observar sua trajetória marcada por tragédias e fatalidades:
Seu irmão, Allan, em 2004;
seu irmão gêmeo, Rafael, em 2016;
sua avó materna, Creusa Maciel, em 2024;
seu pai, Ubirajara, em 2024;
sua avó paterna, Emilia Cecília, em 2025;
e agora seu último irmão, Bira, em 2026.




