domingo, 5 de abril de 2026

Um tanque de guerra

 Uma crônica dedicada a um amigo querido, que tem sido um tanque de guerra — o mais delicado, gentil e forte que já conheci.



Já se passaram onze meses desde que encontrei um amigo em meio às redes sociais. De início, buscava histórias emocionantes para fazer parte de um projeto de escrita que muito me inquietava: as dores do mundo, escondidas em sorrisos bonitos. Por trás das telas, quem estava lá?

Will parecia alguém que carregava as histórias que eu procurava: cabelo longo, olhar distante e sereno, sorriso sutil. Um certo vazio escancarado em sua íris. E uma força invisível o mantendo de pé. Não sei você, mas tenho facilidade em identificar no outro aquilo que é gritante em mim. Pois bem! Apresento: Will!

Lembro claramente. Era uma tarde fria de sexta-feira. Último dia de expediente na escola. Estava ali, com a cabeça cheia de ideias, vasculhando vidas. Ao mesmo tempo, refletia sobre a vida e suas possibilidades. E lá estávamos, iniciando nossa primeira conversa.

Ele desconfiou que eu fosse real — quem é que para, hoje em dia, para ouvir a dor de um estranho? Mas a verdade não precisa de esforço para ser reconhecida.

Em algum momento do nosso diálogo, a confiança surgiu. Porque quem é de verdade não precisa fazer esforço algum para ser reconhecido como tal. Havia lhe enviado algumas perguntas para refletir sobre a vida. A partir delas, ele me enviou, no sábado, um relato pelo WhatsApp. Eu li devagar. Mais de uma vez. Entendi de onde vinha aquele olhar distante, sereno e vazio, mas, acima de tudo, cheio de força.

As coisas começaram a mudar para ele aos doze anos. Corpo leve. Olhos brilhando. Ainda não conhecia uma dor intensa. Inúmeros sonhos. Jogava bola. Era um ótimo jogador. Até um olheiro do Goiás já o observava. Naquela época, o futebol era tudo. Mas parou ali. E por quê? Vamos lá…

Ele estava na calçada, esperando o irmão mais novo, Allan.

De repente — um puxão. Um peso. O corpo sendo arrastado.

Um caminhão-pipa subiu a calçada e esmagou suas pernas. Allan correu.

Gritou. Avisou o que estava acontecendo, e o motorista fugiu. Nessa parte da leitura, eu já estava chorando. Após o desespero, os bombeiros foram chegando, mas Will não ouvia nada. Só uma música alta dentro da cabeça.

Na ambulância, o irmão mais velho dizia:

— Não dorme.

Mas o sono vinha. Um clarão. Depois, escuro. E novamente o clarão. Quando acordou, estava no hospital, em cirurgia. Chamava pela mãe.

No dia seguinte, abriu os olhos na UTI. Sua mãe, Luciene, estava ali, com um prato de arroz nas mãos. Como mãe, sei que o desejo é trocar de lugar com nossos filhos nesse momento.

Will lhe perguntou se voltaria a jogar futebol. Ela respirou. E disse que não. Após dois anos, ele voltou a andar e recomeçou uma nova forma de viver, dividindo-se entre consultas, exames, retornos e superações diárias.

Foi aí que lembrei de algo que li em A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown.

Ser real leva um tempo.

Quando alguém se torna real, já perdeu partes. Já foi desgastado. Já foi atravessado. Já está, de algum modo, surrado.

E, ainda assim, permanece. Will permaneceu. Inspira. Encanta. Motiva. E fortalece.

Hoje mesmo, enquanto conversávamos, ele lembrava uma frase tatuada no braço de seu irmão, Bira, que faleceu agora em março: “Nasça para perder, viva para vencer.” Escrita por um de seus músicos favoritos, o Lemmy. Paramos para observar sua trajetória marcada por tragédias e fatalidades:

Seu irmão, Allan, em 2004;

seu irmão gêmeo, Rafael, em 2016;

sua avó materna, Creusa Maciel, em 2024;

seu pai, Ubirajara, em 2024;

sua avó paterna, Emilia Cecília, em 2025;

e agora seu último irmão, Bira, em 2026.








sábado, 28 de março de 2026

Seja uma bruxona!

 


Engraçado. Nunca fui de me interessar pelo BBB, mas, nas últimas semanas, tenho sido fisgada pelo protagonismo da Ana Paula. Mais alguém que não gosta de perder tempo à toa anda impressionada com a “bruxona”? A coragem de ser quem ela é, sua forma de assumir os riscos de expor suas verdades, é admirável e inspiradora! Enquanto mulheres, precisamos muito de uma representatividade assim: alguém que impõe seus limites, é fiel aos seus aliados e tem consciência de classe. Mesmo sendo riquíssima, luta pela igualdade e pelo respeito, e abomina a injustiça.

Felizmente, ela representa e influencia muitas mulheres que estão passando — ou precisam passar — pelo processo de autoconhecimento e empoderamento. Por isso, ela está sendo tão necessária nesta edição, principalmente diante do aumento no número de feminicídios. Basta uma pesquisa rápida no Google e você encontra os seguintes dados no portal Mundo GTV: no ano de 2024, os registros de feminicídio foram 1.459, subindo para 1.568 em 2025. É assombroso o fato de que, em média, quatro mulheres são assassinadas por dia. É lamentável perceber que, em meio a tantos números, nada muda, pois dados iniciais já indicam um aumento agora em 2026, com o crescimento de casos em estados como o Rio Grande do Sul. Onde vamos parar?

Nada melhor do que ter uma mulher forte sendo protagonista em rede nacional, justamente no momento em que o cenário atual está cheio de situações que nos silenciam. Lembro-me de inúmeras situações em meu último relacionamento nas quais eu tinha que silenciar para evitar receber toda a arrogância dele, para não receber "cara feia", para não ser chamada de dramática e exagerada; silenciei para não ser tachada de louca, ou culpada por apenas ter sentimento. Descobri que isso tem nome: gaslighting! Silenciei diante de situações que ultrapassavam meu limite e, pior, chamava todo o abuso da relação de "destino".

Desde quando o destino é sofrer calada? Infelizmente, a ideia de carma traz essa armadilha: se você está sofrendo, é porque merece; você escolheu essa vida para pagar suas dívidas de vidas passadas. Respeito toda crença, mas, sinceramente, muitas mulheres perdem suas vidas por acharem que Deus quer assim, que seu destino é viver ao lado de um abusador ou de um narcisista até morrer porque "merecem" isso.

Não merecem! Não merecemos! Minha avó decidiu isso para ela, e respeito, pois nada mais posso fazer. Mas, daqui para frente, é outra história. Quebrei as correntes e joguei água nas tochas!

Provavelmente, muitas outras "vozinhas" aceitaram abusos todos os dias e foram silenciadas de algum modo — silenciadas em vida ou com o fim dela. A Ana veio para trazer luz à escuridão de muitas mulheres contemporâneas que ainda se permitem viver situações da "Idade da Pedra", acreditando que seu lugar é na caverna. Mas não! Seu lugar é onde você quiser!  

Se ser forte, ter voz, não aceitar abusos e lutar pelo que acredita é ser 'bruxa', minha cara, seja uma bruxona!

Que nenhuma mulher seja queimada — seja ela bruxa, seja ela livre!





quinta-feira, 26 de março de 2026

As coisas que fazemos sobrevivem a nós


 Acabei de levantar depois de ler uma mensagem da Ana Paula sobre minhas crônicas. A Ana é uma professora de excelência; trabalhamos juntas em uma escola particular aqui da cidade. Amante da Literatura e da Arte e dona de um coração puramente humano. Havia lhe enviado uma crônica que escrevi, pois queria sua opinião. E quando li a frase dela dizendo que minha escrita é um ímã, que fisga — no bom sentido — não apenas os amantes da Arte e, consequentemente, da literatura, como também quem venera a vida, foi mais do que suficiente para me fazer vir direto da cama para o notebook. Sabe aqueles dias que tentam te engolir antes do pôr do sol? Pois bem, foi hoje. Mas é aquela história: nada foge do controle de Deus. E ler sua mensagem foi mais potente do que se tivesse tomado duas xícaras de café torrado.

Outro acontecimento maravilhoso do dia foi receber a mensagem do advogado confirmando a curatela provisória do meu avô. Agora, legalmente, sou responsável por aquele homem que eu esperava na porta de casa após as onze da manhã dos sábados, que sempre me trazia pipoca e leite naquela bicicleta amarela. Agora, com Alzheimer, as memórias estarão se despedindo aos poucos, mas em mim ficarão para sempre. E para garantir que o tempo não as leve jamais, as eternizarei aqui.

Quando, no domingo antepassado, minha avó em sonho avisou que algo me aconteceria, mas que tudo ficaria bem, fiquei um pouco angustiada, preocupada e até incrédula por aquela comunicação. Então veio a segunda-feira, onde minha genitora nos abandonou friamente e, mais uma vez, meus pés não encontraram o chão. A terça foi um dia de escuridão. Mas na quarta voltei a ver o sol, e Janete começou a trabalhar aqui, cuidando do meu avô e do meu filho. Olhando para os dois, sentia que a dor de mais um abandono precisaria esperar. A necessidade do cuidado é mais urgente. Isso me faz perceber agora que preciso criar uma lista de espera para as dores. Não há tempo para atender a todas de uma vez. Mas com organização e paciência a gente chega lá.

Há dois dias, coloquei uma câmera no quarto do meu avô. Como não consegui pagar uma pessoa para ficar no horário da tarde com ele, a solução mais rápida foi instalar uma câmera de segurança com áudio para continuar cuidando à distância. E têm sido dois dias bastante divertidos. Para ele, é um celular na parede. Hoje cedo, já no trabalho, ativei a voz para lembrá-lo de beber água. Tomou um susto e ficou procurando de onde vinha a voz. Foi até a varanda, mas voltou à cadeira de balanço quando expliquei que eu estava no telefone acima da porta e poderia ouvi-lo da cadeira mesmo. O Alzheimer não tira férias. Seria bom se o fizesse às vezes.

Estive pensando, enquanto o olhava em tempo real, que, para além da necessidade urgente do cuidado atual, colocar essa câmera me garante mais uma forma de eternizar tudo isso. E vejo que o que vozinha disse em sonho era realmente real. De alguma forma ela viu tudo, como se nos assistisse por uma câmera de segurança que apresenta o futuro. E com a paz começando a fazer parte dos nossos dias, consolida a certeza que ela me deu: "Minha filha, tudo vai ficar bem!".

Ainda dói não poder acariciar os seus cabelos e, por enquanto, ainda não deu tempo de chorar toda essa dor. Por isso, como dizia antes, eu a deixarei na fila de espera. Não sei se um dia vou deixar de sentir o que sinto hoje — talvez nem queira, ou talvez nem possa. Afinal, não doer é como parar de sentir a saudade, e isso eu sei que nunca vai acontecer. Espero, ao menos, que minha face se inunde de lágrima quando chegar a vez dela na fila. Pois, no final, eu sei que tudo vai ficar bem. Ela mesma me garantiu

Olho as câmeras enquanto escrevo e o vejo dormindo um sono leve e merecido. Ontem adormeci com o celular na mão, observando-o, congelada e reflexiva. Uma sensação de paz, mesmo em meio ao caos. Lembro da fala que ouvi no trabalho essa semana: "Ninguém quer saber dos seus problemas pessoais, querem saber da Mônica profissional. Você sabia do trabalho que teria trazendo seu avô para morar com você. Se organize! Para fazer um nome leva tempo, mas para perder é fácil". Foi um momento em que me senti a Frozen, sem nenhum esforço. O choro não veio, mas a certeza de que ali não era o meu lugar ficou evidente.

Sinceramente, já não espero ser compreendida. Muito menos que ofereçam apoio ou que deixem de ser quem são. Na verdade, não espero absolutamente nada! Afinal, aprendi que o outro é território inabitável e, se há um espaço com que devo me preocupar, é o meu — embora sinta que nem ele me pertence por inteiro. Foi assim que compreendi que nada vale mais do que estar ao lado de quem a gente realmente ama e que nos ama de volta. No fim das contas, nada compensa a dor do arrependimento de não ter ficado mais tempo. Dos almoços não compartilhados. Das risadas que não existiram. Da vitamina que não foi preparada, do banho que não foi dado. Da unha que não foi pintada. Do cabelo que não foi cortado. Absolutamente nada vale esse preço.

Por isso, quando olho o seu sono tranquilo, sei que é exatamente ali que habita o meu coração. É nesse instante que recordo a frase do livro Extraordinário: 'As coisas que fazemos sobrevivem a nós'. Compreendo, enfim, que mesmo depois de mim, vocês são o que deve permanecer. Pois, felizmente, a gente só encontra a paz de verdade quando decide que o amor é o único território que realmente nos pertence


segunda-feira, 23 de março de 2026

A doença de um século


  Muitas falas ao mesmo tempo ao redor da mesa dos professores. Cada dupla, uma conversa diferente. Uma fala sobre uma apresentação para a qual precisam de tempo para ensaiar com os estudantes. Outros falam sobre a aluna que veio com roupa de academia; outra comenta sobre o lugar onde almoça uma vez por semana. Há quem fale da impressão de um texto que está aguardando na fila. Outros apenas olham para a tela do celular. Tocou o sinal: três se levantaram e foram para a sala de aula. Duas brincaram e se despediram como se fossem permanecer sentadas. Antes de se levantar, uma diz que esta semana vai dar uma "caminhadinha", que precisa cuidar da saúde. Cuidamos realmente da saúde para viver melhor ou para durar mais tempo na engrenagem?

    Hoje foi aniversário de uma colega, que trouxe lanche para todos. Celebramos com o tradicional "Parabéns para você". Achei a iniciativa inédita e muito interessante, mas não consegui identificar a mensagem em seu semblante. Será que estava satisfeita? Tomara que sim, afinal gastou sua energia para comprar tudo aquilo. Será que celebramos o aniversário ou apenas cumprimos o protocolo de estarmos vivos juntos?

    Enquanto todos interagem, fico aqui sentada, aguardando os estudantes entrarem na sala para pegar livros emprestados. A biblioteca está sendo usada para lecionar. E estou usando a sala dos professores para empréstimo de livro. Sou grata pelo meu trabalho e me sinto mal por as vezes, não desejar estar aqui. Desejo me deitar e dormir profundamente. Sem pressa, sem despertador, sem cobranças. Quero dormir. Minha função é leve e, por isso, me sinto ingrata. Cada um se movimenta de acordo com suas demandas e eu aqui, esperando a hora do fim do expediente. No fundo me pergunto: por que será que o cansaço da alma é visto como ingratidão e não como um pedido de socorro?

    Neste momento, na sala dos professores, o tempo é fatiado em minutos — daqueles em que o mundo moderno se revela um lugar onde todos falam e ninguém escuta. Já percebeu que estamos em uma hiperconexão desconectada? O mundo inteiro parece estar assim: resolvendo o urgente enquanto o essencial dorme. Celebramos anos de vida com rituais automáticos. Perceba que o problema global aqui é a perda da profundidade no encontro humano.

    E enquanto todos correm para as salas de aula, eu fico por aqui, observando o mundo girar numa sincronização de problemas universais quase perfeita. A humanidade esqueceu como é o silêncio de um sono sem culpa. Sentir-se mal por não querer estar onde se deve é a doença de um século que nos obriga a ser gratos por estarmos exaustos. A verdadeira liberdade não é ter um trabalho leve; é o privilégio de habitar o próprio silêncio.

    Eu só queria devolver o meu despertador para a fábrica. Devolver a própria contagem do tempo. Eu queria o silêncio que precede a invenção das horas. E enquanto todos celebravam como protocolo, eu mastigava a minha própria ausência, sentindo que a liberdade não é um trabalho leve, mas a permissão para se sentir inteira.

domingo, 15 de março de 2026

A felicidade é chuva

 Sobre o vício de buscar a felicidade e a arte de elevar o mundo através das pequenas satisfações

Era um dia quente. Eu estava sentada em frente ao computador na biblioteca — uma mesa simples de madeira em um ambiente bem arejado. No entanto, o sol era maioral; afinal, estamos no mês de março no Nordeste, e o calor aqui é quase um parente: daqueles que a gente não gosta tanto, mas também não vive sem. Do lado de fora, profissionais da sala do AEE transitavam em busca de um ar fresco.

Eu conversava com Elihud, um colega de trabalho recém-chegado. Detalhe: ele é judeu e, desde sua chegada, sinto vontade de explorar seus conhecimentos e sua filosofia de vida. Inesperadamente, ele entrou na biblioteca para perguntar a senha do Wi-Fi e acabamos iniciando uma conversa sobre a felicidade. Eu havia lhe mostrado a crônica de Martha Medeiros, “Feliz por nada”, e ele comentou como o conceito é visto pelo judaísmo.

Ouvi atentamente sua explicação: a felicidade não é o nosso objetivo principal aqui. A busca obstinada por ela é, na verdade, um vício insaciável.

E talvez você tenha se perguntado o mesmo que eu: mas, afinal, qual é o nosso objetivo aqui? Para minha surpresa, a resposta foi: apenas melhorar um pouco o mundo à nossa volta. De uma forma mais ampla, Elihud resume nossa missão afirmando que o objetivo é elevar tudo o que estiver ao nosso redor.

Achei a ideia intrigante e graciosa. Há poucos dias, eu havia escrito sobre “os felizes e os tristes”, e aquela conversa acontecia exatamente no dia em que eu precisava ouvi-la. Afinal, a felicidade é um desejo universal — quem quer viver na tristeza? Ninguém, acredito. Mas, naquele momento, ele me fez olhar para a felicidade como a chuva: que às vezes cai e às vezes não. Ela não é o único elemento necessário para fazer as flores brotarem; o sol, o solo, o vento, as abelhas e os pássaros também o são.

Todos esses elementos juntos têm um único propósito: fazer a planta crescer! Sendo assim, o nosso também é: fazer o mundo à nossa volta crescer, florescer, germinar e dar frutos. Independentemente de estarmos esbanjando felicidade ou mergulhados em tristezas e amarguras, o que importa é atingir um nível de consciência que eleva a necessidade humana do micro para o macro. Isso não minimiza o individual, mas amplia a percepção e a intencionalidade de nossas ações e das pessoas ao nosso redor.

Eram quatro e trinta e oito da tarde de sexta-feira. Ele iria embora faltando dez para as cinco; pegaria o ônibus para outra cidade. Enquanto eu lia o rascunho do livro dele — um resumo de uma obra de oração judaica —, alguns estudantes entraram para trocar livros. Pausei a leitura. Percebi que os olhava sob outra perspectiva. Sempre os olho com empolgação — meu desejo é que escolham livros e se sintam felizes com a leitura, pois livro é sempre felicidade — como uma nuvem cinzenta que sempre traz água. Ali, olhei para eles, serena. Afinal, o ato de circular pela biblioteca já configura um momento feliz, e o bibliotecário eleva, direta ou indiretamente, a consciência dos estudantes, como todos os professores que se doam um pouco mais do que a função exige.

O relógio indicava quatro e quarenta e nove, e lá se foi ele pegar o ônibus. Sempre sereno. Estava me sentindo grata pela oportunidade daquele diálogo. Raramente encontro alguém com quem possa filosofar sobre a vida; diálogos tão densos e abstratos que obrigam o pensamento a desacelerar para conseguir acompanhar o ritmo, um processo de humanização importante em meio a uma sociedade acelerada e automática. Haviam sido minutos felizes. Sem gargalhadas descontroladas, de orelha a orelha. Uma felicidade tranquila. Sem pressa, sem promessa, expectativa ou obrigação. Se você coloca a felicidade como único objetivo, o resultado é a insatisfação, logo, o insustentável, pois na busca intensa de momentos felizes a outros, aumenta-se a exigência e a insaciável fome pela felicidade. Gerando de novo a temida monotonia, e consequentemente a decepção e insatisfação.

 Ao chegar em casa, pensei em como a felicidade plena talvez esteja apenas em não buscá-la. E posso afirmar com certeza: a felicidade está na satisfação de jantar uma maça acompanhada de uma xícara de chá e olhar a varanda, sem pressa.

Um tanque de guerra

  Uma crônica dedicada a um amigo querido, que tem sido um tanque de guerra — o mais delicado, gentil e forte que já conheci. Já se passaram...